Quando ouço essa gente, é fácil ficar “ligada”, incomodada, estupefata, certamente encantada, como se estivesse numa espécie de sonho ou mundo paralelo dos sons e da poesia. Porque eles sabem fazer poesia enquanto tocam, e não somente pela música, mas às vezes pelo visual ou pela presença de instrumentos que o velho e bom rock’n'roll não admitiria há anos atrás. Rock lembra muito frequentemente agressividade, revolta, quebra de tabus e de regras, mas muito frequentemente de forma agressiva, masculina, raiva de menino do subúrbio. Uma amiga uma vez me disse que até as mulheres roqueiras costumam parecer adolescentes do sexo masculino. Pode ser, mas esses três grupos quebram as regras de forma feminina (mesmo sendo duas delas constituídas por homens). Não existe aqui o excesso de testosterona, nem gritos ou punhos cerrados, nem cabelos longos sujos e correntes de caveira, vestindo preto e nem mesmo guitarras. Se houver alguma guitarra, ela é coadjuvante. é o burlesco que dá as cartas, o teatro, o semi-oriental, o asilo dos desterrados, mas com muito charme (sem aquele apelo de “sofri bullying quando criança porque usava óculos que pareciam os do Chaves” de alguns emos de plantão ou indies de centro acadêmico). Eles quebram a banca do rock, desclassificam a qualificação e qualquer nomenclatura de gênero, e são diferentes mas são adultos, são artistas maduros e criativos até não poder mais. Nem sei mais o que é isso que estamos ouvindo, não é mais rock, mas é estranho e é do cacete!
1. Devochka
Essa banda liderada por Nick Urata, que considero um músico nada menos do que genial, arrepia com o uso de violino, acordeon, entre outros instrumentos exóticos, mas diferente da viadagem de bandas de rock mais pesado que gostam de pôr música clássica no contexto simplesmente colocando uma orquestra amplificando o som como mero pano de fundo, o violino e o acordeon não estão aqui para tornar a coisa mais refinada. Eles estão aqui para criar um clima de sonho-pesadelo de infância, fazer você se questionar se está pisando na terra, se está no seu país de origem. Vira e mexe você acha que alguém vai aparecer falando russo do seu lado, dadas a sinfluências de música folclórica eslava no som dessa galera.
Reparem no uso da tuba na faixa de abertura do fantástico álbum “Una Volta” , de 2003.
2. Beirut
Alguns a consideram uma banda irmã do Devotchka no sentido de que se você conhece uma, tem que conhecer e gostar da outra, apesar dos sons não serem tão parecidos. O Beirut é melancólico de forma diferente, talvez mais suave e menos pungente do que a banda de Nick Urata, possivelmente porque o vocalista e líder, Zach Condon, possui uma bela e aveludada voz cujo timbre lembra a de Jim Morrison, e a de Urata é mais aguda e triste, este último é, digamos, menos “cantor”, enquanto Condon é um cantor nato. Beirut também possui influências do leste europeu, com absoluta ausência de guitarra. De novo acordeon, órgão, metais (trumpete, viva o trumpete), cordas dedilhadas exóticas. E a voz de menestrel vindo diretamete da alta Idade Média de Condon. Eita som bacana. Infelizmente a rede Globo de TV promoveu o desserviço de usar um carro-chefe do Beirut, “Elephant Gun”, em uma de suas novelas ou qualquer coisa que valha, tirando a música e a banda do contexto indie ao qual ela pertence, e azedando a poesia. Confiram o poder dos metais e da voz de Condon na faixa abertura de “March of the Zapotec”.
3. Rasputina
Esse exótico grupo formado em Nova York pela espetacular artista Melora Creager (cello, vocais, letras e criação em geral) é basicamente dominado por mulheres. O único homem é o baterista, Jonathon Tebeest. A conformação básica é de 2 cellos (meninas) e bateria (menino), sendo a vocalista Creager cello líder. Pra começar, eles t6em um visual incrível: inspirado em filmes que se passam no século XIX como “E o vento levou”, elas usam corsets claros, espartilhos, e o menino usa suspensório, colete, chapéu das antigas, o que puder pra causar a impressão de que Melora é A Louca e o resto da banda camponeses no mínimo estranhos. A voz de Melora, cristalina e aparentemente fria, causa ainda mais estranhamento, além dos cellos. A banda muda constantemente com saída e entrada de membros, inclusive já tendo contado com a participação da violoncelista avant-garde Zoe Keating. Sem falar que o som realmente é feminino, delicado, com uma raiva e intensidade contida e direcionada típica das mulheres, com letras que contam histórias medievais ou que confessam coisas de mulheres. Confiram o poder de Rasputina (aliás, esse nome vem da filha do excêntrico conselheiro russo Rasputin do czar, antes da Revolução Bolchevique) na faixa do disco “How we quit the forest” de 1998, e no cover da famosa “Wish you were here”do Pink Floyd, que ganhou uma coloração melancólica, dark cabaret, toda apropriada na voz e no cello de Melora Creager e seus companheiros.
You don’ own me, no…
Floyd em nova pele
8 julho, 2011 no 3:52 pm
Beirut e Rasputina eu conheço *-*
A outra que eu não tinha ouvido falar, mas é bem legal ^^
Beijos!
Tami.
8 julho, 2011 no 4:09 pm
Amo o Devochka, inclusive o Nick Urata fez a trilha sonora do ótimo filme “I love you Phillip Morris”, que foi traduzido no Brasil como “O Pilantra do ano”, algo assim… um filme gay (onde Carrey até beija na boca Ewan McGregor e tudo o mais) sobre um cara que cometeu os maiores estelionatos e escapadas da prisão pra ficar ao lado do seu grande amor. A música tema é do disco “Curse yor little heart”.