Arquivos Mensais:julho 2011

The Loneliest Monk e a solidão

The Loneliest Monk e a solidão

Descobri há poucas semanas este incrível duo que faz cello rock de vanguarda e não sei mais o quê. O “monge mais solitário” é um cello e percussão.

Conferindo:

Difícil saber o que isso é. Mas dá pra ver que o duo de Michelle Morales, que além do cello é vocalista e eventual tecladista, e Miles Benjamin, que se encarrega da bateria e dos teclados , além de se arriscar nos vocais, trazem um algo mais ao mundo do Cello Rock. É difícil às vezes saber a fronteira entre rock e jazz e sonzeira de vanguarda que eles fazem. Até porque, como o Rasputina, eles se trazem o teatro para a música. Benjamin sempre se apresenta mascarado e Morales também tem adotado a ideia da persona estranha, de outro mundo, talvez literário, que desce diante de nossos olhos e ouvidos. O mais recente video do duo traz tudo o que estava em potencial criativo e nos evidencia a solidão em que o tal monge deve estar… porque de alguma forma, explicita a nossa solidão, em meio a um som simultaneamente encantador e levemente macabro. Um som que é difícil compartilhar com quem não tem as mesmas ideias a respeito de Arte. Uma solidão das ideias e do coração.

Disse o Chicago Tribune: “um baile de máscaras… As canções soam frequentemente como se tivessem sido criadas e reunidas por fantasmas e memórias.”

Não dá pra comparar o the Loneliest Monk com grupos de cello rock ou artistas de vanguarda  chatos como Break of Reality,  Unwoman e Julia Kent. porque eles são chatos, são repetitivos, fazem um som de eunucos, criaram uma fórmula e a repetem na segurança de que são considerados excepcionais em sua idiossincrasia, mas apenas não atentaram para o fato de que são personagens de uma história com poucos nomes. O cello rock é uma novidade, o mundo sempre estava acostumado com a ideia do violino tomando a liderança no mundo dos arcos, e de uns anos pra cá o cello ganha um destaque tal que não poderíamos pressupor há 30 anos (não existe Violin Rock, mas sim a participação do violino no Rock), desde Rasputina e principalmente desde o Apocalyptica. The Loneliest Monk é mais: é inteligência musical, é conhecimento de duas pessoas que obviamente estudaram muito e agora colocam a coisa toda a serviço de uma imaginação profunda, de uma concepção de arte que é simultaneamente moderna e antiquada, racional e sensual, com um som possante e viril ao mesmo tempo intuitivo e, portanto, feminino. É o encontro de homem e mulher. The Loneliest Monk é mistério, meus amigos.

Pra saber mais: http://kilo.wearetheloneliestmonk.com

Feliz Dia Mundial do Rock!

Feliz Dia Mundial do Rock!

Era para ter postado ainda em 13 de julho. Deixo para o Dia da queda da Bastilha então.

Eis o porquê de haver tantas bandinhas mixurucas hoje em dia: os músicos perderam o contato com o pai mais fértil da história da música popular ocidental, o blues. O mesmo que gerou o jazz, gerou esse colosso aí em cima. Outra observação: infelizmente não fazem mais cabelos como esse hoje em dia. Lindo, não?

Três bandas estranhas que todos deveriam conhecer

Três bandas estranhas que todos deveriam conhecer

Quando ouço essa gente, é fácil ficar “ligada”, incomodada, estupefata, certamente encantada, como se estivesse numa espécie de sonho ou mundo paralelo dos sons e da poesia. Porque eles sabem fazer poesia enquanto tocam, e não somente pela música, mas às vezes pelo visual ou pela presença de instrumentos que o velho e bom rock’n'roll não admitiria há anos atrás. Rock lembra muito frequentemente agressividade, revolta, quebra de tabus e de regras, mas muito frequentemente de forma agressiva, masculina, raiva de menino do subúrbio. Uma amiga uma vez me disse que até as mulheres roqueiras costumam parecer adolescentes do sexo masculino. Pode ser, mas esses três grupos quebram as regras de forma feminina (mesmo sendo duas delas constituídas por homens). Não existe aqui o excesso de testosterona, nem gritos ou punhos cerrados, nem cabelos longos sujos e correntes de caveira, vestindo preto e nem mesmo guitarras. Se houver alguma guitarra, ela é coadjuvante. é o burlesco que dá as cartas, o teatro, o semi-oriental, o asilo dos desterrados, mas com muito charme (sem aquele apelo de “sofri bullying quando criança porque usava óculos que pareciam os do Chaves” de alguns emos de plantão ou indies de centro acadêmico). Eles quebram a banca do rock, desclassificam a qualificação e qualquer nomenclatura de gênero, e são diferentes mas são adultos, são artistas maduros e criativos até não poder mais. Nem sei mais o que é isso que estamos ouvindo, não é mais rock, mas é estranho e é do cacete!

1. Devochka

Essa banda liderada por Nick Urata, que considero um músico nada menos do que genial, arrepia com o uso de violino, acordeon, entre outros instrumentos exóticos, mas diferente da viadagem de bandas de rock mais pesado que gostam de pôr música clássica no contexto simplesmente colocando uma orquestra amplificando o som como mero pano de fundo, o violino e o acordeon não estão aqui para tornar a coisa mais refinada. Eles estão aqui para criar um clima de sonho-pesadelo de infância, fazer você se questionar se está pisando na terra, se está no seu país de origem. Vira e mexe você acha que alguém vai aparecer falando russo do seu lado, dadas a sinfluências de música folclórica eslava no som dessa galera.

Reparem no uso da tuba na faixa de abertura do fantástico álbum “Una Volta” , de 2003.

2. Beirut

Alguns a consideram uma banda irmã do Devotchka no sentido de que se você conhece uma, tem que conhecer e gostar da outra, apesar dos sons não serem tão parecidos. O Beirut é melancólico de forma diferente, talvez mais suave e menos pungente do que a banda de Nick Urata, possivelmente porque o vocalista e líder, Zach Condon, possui uma bela e aveludada voz cujo timbre lembra a de Jim Morrison, e a de Urata é mais aguda e triste, este último é, digamos, menos “cantor”, enquanto Condon é um cantor nato. Beirut também possui influências do leste europeu, com absoluta ausência de guitarra. De novo acordeon, órgão, metais (trumpete, viva o trumpete), cordas dedilhadas exóticas. E a voz  de menestrel vindo diretamete da alta Idade Média de Condon. Eita som bacana. Infelizmente a rede Globo de TV promoveu o desserviço de usar um carro-chefe do Beirut, “Elephant Gun”, em uma de suas novelas ou qualquer coisa que valha, tirando a música e a banda do contexto indie ao qual ela pertence, e azedando a poesia. Confiram o poder dos metais e da voz de Condon na faixa abertura de “March of the Zapotec”.

3. Rasputina

Esse exótico grupo formado em Nova York pela espetacular artista Melora Creager (cello, vocais, letras e criação em geral) é basicamente dominado por mulheres. O único homem é o baterista, Jonathon Tebeest. A conformação básica é de 2 cellos (meninas) e bateria (menino), sendo a vocalista Creager cello líder. Pra começar, eles t6em um visual incrível: inspirado em filmes que se passam no século XIX como “E o vento levou”, elas usam corsets claros, espartilhos, e o menino usa suspensório, colete, chapéu das antigas, o que puder pra causar a impressão de que Melora é A Louca e o resto da banda camponeses no mínimo estranhos. A voz de Melora, cristalina e aparentemente fria, causa ainda mais estranhamento, além dos cellos. A banda muda constantemente com saída e entrada de membros, inclusive já tendo contado com a participação da violoncelista avant-garde Zoe Keating. Sem falar que o som realmente é feminino, delicado, com uma raiva e intensidade contida e direcionada típica das mulheres, com letras que contam histórias medievais ou que confessam coisas de mulheres. Confiram o poder de Rasputina (aliás, esse nome vem da filha do excêntrico conselheiro russo Rasputin do czar, antes da Revolução Bolchevique) na faixa do disco “How we quit the forest” de 1998, e no cover da famosa “Wish you were here”do Pink Floyd, que ganhou uma coloração melancólica, dark cabaret, toda apropriada na voz e no cello de Melora Creager e seus companheiros.

You don’ own me, no…

Floyd em nova pele