Confesso que, apesar de gostar muito mesmo do Apocalyptica, não sou metaleira. Nunca fui, nunca tive talento, sangue, alma de metaleira. Metal é um termo estrangeiro para meu espírito apesar de achar interessante e que até os músicos de metal conseguem atingir as fronteiras do belo uma vez na vida.
Mas não é isso que eles buscam nesse tipo de rock, e é o que eu busco. Minha alma definitivamente é do blues. Do jazz. Do folk e do rock envolvido nessa capa, quando não estou dedicando minha audição à chamada música “erudita”.
O que faz as pessoas terem disposições estéticas tão diferentes? Cogitar teorias a respeito pode ser divertido. Mas não vim aqui para isso.
Gostaria mesmo é de ressaltar algo que percebi há pouco tempo a respeito do blues. E de seus filhos folk-rock e soul. Coisa óbvia para muitos, mas apenas senti na pele há poucos dias.
É preciso estar muito puto da vida para escrever uma canção dessas. Mais do que qualquer metaleiro jamais possa imaginar, mesmo com todos headbangs e poses de quem está puto…
Você eleva as taxas, congela nosos salários e manda meus filhos para o Vietnam. É isso o que eu tenho pra dizer, porra. Que canção furiosa, sem a necessidade de uma guitarra distorcida e ultra barulhenta. Apenas a voz da divina Nina e uma banda simples com uma guitarra potente mas discreta.
Isso é o blues. Canta como um subempregado da fábrica que não recebe há trẽs meses, resmunga pelos cantos com palavras precisas e notas tocantes, ódio sem gelo no whiskey, mas com uma voz distinta e metálica para o céu, única testemunha de tantos sofrimentos nesta terra esquecida por Deus.
Nenhuma peça de Lizst se compara a isso, que me perdoem os eruditos. Bem, Liszt era um chato, de fato. Nada tão conhecido possui tanta profundidade sem palavras, tanta hipnose no deslumbre diante do medo, do escuro, da noite, do terror. Nem existe nada de qualquer banda de rock que se compare em simplicidade e estertor. Sem gritos, sem efeitos especiais, sem cabelos esvoaçantes. Dark was the night.
E também nunca ouvi uma canção verdadeiramente feminista, puta da vida, mas apaixonada, que diz algo como: eu te amo, mas se você nãoi me tratar como uma mulher de verdade, te ponho um par de chifres na testa, é inevitável, afinal sou de carne e osso. Mais feminino e verdadeiro, e digno de si, do que “Do Right Woman, Do Right Man” na voz da grande Aretha, não há. É o despertar do soul, do black power, dos panteras negras e a força do movimento feminista mostrando as caras nas primaveras do Ocidente nas décadas de 60 e 70. They say it’s a man’s world, but you can’t prove that by me. And as long as we’re together baby, show some respect for me. Uau, todas as feministas do mundo, uni-vos diante da incrível voz de Aretha.
E quando românticos… simplesmente avassaladores. Arroubos e cenas de tragédias shakespeareanas, nada menos.
Mas boa parte do blues trata de sexo, de formas variadas, seja do homem ou da mulher que foram abandonados por seus fogosos amantes e deixados à míngua com uma garrafa de bebida, ou cantando a história de um desejo, ou de uma solidão preexistente, ou ainda cantando o indivíduo que se garante como o(a) melhor amante do mundo, o sonho de todas as mulheres(homens), os deuses do sexo que são menestréis nas ruas sujas de alguma metrópole. Ladies and gentlemen, segue Mr. Waters com sua famosa sequência 1-2,1-2-3.
E como sempre é dito por aí, mais sofrimento, mais sangue negro, mais orações nas encruzilhadas, lágrimas e garrafas de bebida, por motivos diversos. Sempre cantados com uma dignidade e uma pungência aparentemente incompatíveis, mas que se entrelaçam na ideia única, concebida a ferro e fogo, no sul dos Estados Unidos.
Ninguém consegue ficar tão puto e com tanto medo, e ao mesmo tempo tão calmos e nobres na contemplação de seu sofrimento.
That’s the blues!