Há música para todo estado de espírito possível. Inclusive para quando se deseja a solidão acima de tudo. Cito alguns exemplos.
1. Marin Marais, Lully, Couperin, Demachy, Sainte Colombe e outros renascentistas na viola da gamba.
Antes de qualquer coisa, procurar por Jordi Savall e Le Concert des Nations tocando os compositores citados. Não pode haver interpretação mais precisa que a de Savall, maior delicadeza e compreensão espiritual da dimensão de cada peça. Sua viola da gamba e seus músicos são um só organismo.
O intimismo de “La Revêuse”, “Le Badinage”, de Marais, e as peças características de St. Colombe, o barroco francês se vestindo de um preciosimo rococó mas que na verdade falava apenas de verdade, natureza, amor, tristeza, melancolia. Coisas com cheiro de rio deslizando sobre pedras e céus noturnos. A viola da gamba francesa é uma das melhores companhias que uma pessoa pode desejar.
2. Nick Drake
Sem me alongar muito, já que o nome suscita pensamentos melancólicos por si. Beleza, solidão e reserva de sentimentos apenas reelados de soslaio em acordes estranhos ao violão (afinado de forma exótica mas paradoxalmente terna), e uma voz aveludada e sombria que inspiram chuva, estradas tristes e árvores de copas largas, ficalmente dando para um jardim onde se vẽ um túmulo, onde estão gravadas as palavras: “Now we rise…and we are everywhere.”
Um video com cena da homenagem atuada por Heath Ledger, no “papel” de Drake.
3. Emiliana Torrini
Sua voz suave, infantil e doce lembra muito a de Björk, com a diferença que Torrini é muito melhor. Em que sentido? É mais consistente. O que estraga (para meu gosto particular, muitos adoram) Björk, conterrânea de Torrini, é seu excesso de experimentalismo. Emiliana Torrini é folk, é quase visual, é material e simples. Por isso a poesia e o silêncio que ela domina de forma tão magistral são companhias quase não sentidas numa tarde dourada de outono.
Meus gatos, vinho e estas companhias, por exemplo, entre outras presenças musicais como Vashti Bunyian e Yann Tiersen, tão diversos em mundos e influências, preenchem minhas solidões antárticas como ventos frescos no início da estação. Adentrando meu quarto, passando pela janela, encantando a vizinhança, hipnotizando felinos.
