Cello e piano – um casamento

O cello é um instrumento da família das cordas friccionadas por arcos. Ou simplesmente da família dos arcos. De registro médio, deveria ter um diálogo constante e harmonioso com os outros membros de sua família. Deveria ser o irmão do meio, entre o agudo lamento do pequeno violino e alguma intimidade com sua irmã mais próxima em sonoridade, a viola, e alguma distância mínima, amenizada pela sua modéstia e habitual discrição, com relação ao pesado, às vezes triste, às vezes cômico, irmão maior, o contrabaixo. Vemos que a família parece funcionar perfeitamente nos quartetos e quintetos, mas de fato eles mantém uma norma polida, social, dos bons costumes de apresentação familiar. Eles estão sempre dialogando nestas peças, mas existe um conflito inerente. Uma disputa entre os violinos, a viola até que tenta ser mais participativa, e o cello se resigna à sua fina posição de apoio, discreto, leal, delicado, tranquilo, sem tentar se exibir para os outros, como fazem normalmente os violinos. Apenas aceitando seu papel. De qualquer forma, é uma reunião com algumas farpas esvoaçando e sem profunda intimidade.

Principalmente entre cello e violino. Existe uma clara contradição, disfarçada pelo fato de que o violino, em sua tagarelice e exibicionismo naturais, não se sente ameaçado pela madura fala do cello, íntimo e reflexivo. Eles são tão distintos que não pode haver uma guerra. Eles conversam. Mas nunca haveria um romance entre eles, um amor real, uma conversa que concluísse em compreensão mútua, em um entrando no coração do outro. É impossível. Um desliza respeitosamente sobre o outro, mantendo seus corações separados.

Curiosamente o mesmo não acontece quando o cello encontra o solitário piano. Aparentemente o piano consegue, na sua majestade e amplitude de alma, encontrar qualquer instrumento, apoiá-lo, dialogar, sem deixar de brilhar. O encontro com o violoncelo não seria diferente. Mas na minha opinião, para conversar com o cello, não pode haver interlocutor mais amoroso e íntimo do que o piano. Eles são almas gêmeas. O espírito de intimidade e delicadeza entre os dois consegue sua máxima manifestação. A natureza marinha, ampla, larga, profunda e brilhante do piano encontra seu reflexo na melancolia moderada e sombria, sem lamentos excessivos, mas de grande alcance, do violoncelo. Eles não só conversam. Eles oram. Eles compõem um poema.

Aqui a demonstração não valeu, podem dizer, porque a música é na sua estrutura lenta e delicada. Simples. Pois então vejamos como os amigos se saem num campo de batalha (Shostakovitch Cello Sonata). Sempre unidos. Nunca uma sombra de traição.

É um casamento mais do que perfeito. Intrigante, entretanto. É possível vê-los à vontade, à beira-mar, ou numa noite de lua, tranquilos, mesmo que a angústia mostre sua face sinistra na última janela da torre, na Phantasiestücke de Schumann.

Por isso, antes de me apaixonar pelo cello, sempre sonhava em ser pianista. Estava na minha natureza. Estou sendo levada para outro caminho, mas são afluentes do mesmo grande rio.


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