Sem intenções objetivas, sem hierarquias, sem orientações. Apenas uma lista com alguns apontamentos vadios.
1. “Last Time I saw Richard”, de Joni Mitchell.
Um bar, bebida, divagações sobre o fim de todos os românticos… cínicos, amargurados, bêbados, acusando o mundo inteiro de hipocrisia e jogando a si mesmos(as) na fogueira de desprezo e exposição social, e um auto-desprezo sarcástico, mas ainda com uma profundidade na alma que somente os poetas de nascimento, os iniciados, os que carregam a marca (como foi escritp pelos Românticos do século XVIII, “os poetas são filhos da tempestade”) possuem. Esta é a canção de Joni que fecha o lendário álbum “Blue”, um clássico de 1970. Mais do que “River” (que já foi tão regravada que não posso mais aguentar, sempre pulo a faixa) e a também melancólica “A Case of You”, esta canção merece a concentração máxima e lágrimas no final… com um riso no canto da boca, um copo de whiskey, lua e memórias misturadas à reflexão sobre o passado, tenha sido ele bem vivido ou cheio de espinhos que gostamos de evitar.
O piano traz a delicadeza enquanto o canto de Mitchell equilibra a emoção com sobriedade e maturidade. Ela provavelmente encontra um ex-amante (?), caído em desgraça, alcoólatra e amargo. Como ela? Richard seria o espelho da compositora? A imolação máxima de si mesma numa situação de extrema depressão, sem que ela tenha que se expôr diretamente ao se colocar em tal situação?Recursos de uma poetisa, e com o coração partido. Mas cuja dignidade e inteligência não se curvaram, apenas tomaram uma tonalidade escurecida…em dias de cafés escuros e bebidas sem gelo nem á
gua.
“(…)And he told me all romantics meet the same fate someday
Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe
You laugh, he says you think you’re immune, go look at your eyes
They’re two blue moons
You like roses and kisses and pretty men to tell you
All those pretty lies, pretty lies
(…)
“Richard, you haven’t really changed,” I said
It’s just that now you’re romanticizing some pain that’s in your head
You got tombstones in your eyes, but the songs
You punched are dreaming
(…)
I’m gonna blow this damn candle out
I don’t want nobody comin’ over to my table
I got nothing to talk to anybody about
All good dreamers pass this way some day
Hidin’ behind bottles in dark cafes(…)”
2. “The Way Young Lovers Do”, de Van Morrison.
Uma canção sobre o amor enquanto jovem, o amor de jovens, como diz o título. Uma beleza ímpar, enfurecida, libertária, pegando fogo e colocando fogo por onde passa. Num mundo envilecido e amarelado pelas restrições, jogos de adultos, misérias em romances incompletos, repressão sexual e social de diversos níveis, doenças sociais, caos. Ou excessiva calmaria causada por opressão política, religiosa e convenções sociais, ou ideias erradas que um indivíduo possa fazer de si mesmo. Tudo é destruído ou desafiado pela voz rascante e rebelde de Van Morrison, o baixo enlouquecido, metais em fúria, guitarra tagarela e cordas quase ciganas como uma ventania que espalha folhas varridas para um canto e esvoaça saias e cabelos. A libertação amorosa, apenas como os jovens sabem fazer, ou como aqueles que nunca envelheceram.
A canção abre o filme “Welcome to Sarajevo”, aliás uma abertura alucinante. Uma noiva se prepara com a ajuda da mãe para seu casamento. Elas percorrem as ruas destruídas da cidade sitiada. A moça acredita na inocência do ritual sagrado e na força do amor numa época de guerra e crueldade. A música cai como uma luva.
“We strolled through fields all wet with rain…”
3. “Never Will I Marry”, de Frank Loesser, com Nancy Wilson e Cannonball Adderley.
Um hino à liberdade. Se bem que com um certo toque de melancolia, pois para alguns esta bela canção pode soar como um hino às avessas ao casamento, ao amor idealizado na união (seja religiosa ou não), cristalizado na velha fantasia (real ou impossível) do amor eterno até que a morte os separe. Creio que não. Ela é um corajoso libelo pela autonomia, individualidade, e um voto de confiança na amplitude e imprevisibilidade da vida, na esperança de eternas aventuras para quem decidir não envelhecer. “Wide my world/narrow my bed…”
A voz cristalina de Nancy Wilson e o sax genial de Cannonball Adderley, duas lendas do jazz. Baixo bem posicionado e presente garantindo a leveza e modernidade que a peça canta, a voz limpa e versátil de Nancy com um solo memorável de Adderley. Só ouvindo. Pra curtir numa manhã de sol.
4. “Visions of Johanna”, de Bob Dylan.
Visões do poeta, observações das pessoas em torno, seus medos e vícios. Para ouvir de madrugada, quando todos estiverem subersos por sonhos e inertes no silêncio. As imagens evocadas ganham um realismo místico e a gaita de Dylan voa como um pássaro prateado na noite.
Deixemos o profeta falar por si mesmo.
5. “Like a Rolling Stone”, de Dylan.
Uma das melhores canções de todos os tempos (na opinião da Rolling Stone, a melhor). Mais um elogio à libertação do indivíduo. E sem ingenuidade… ao contrário, reforçada com cinismo e uma crítica à dignidade burguesa. Uma gaita alucinante e guitarras elétricas enfurecendo tolos pseudo-intelectuais xiitas do folk.
Neste show de 1966, ele urra desafiando a plateia.
6. “Os Alquimistas Estão Chegando”, de Jorge Ben.
Do álbum “A Tábua de Esmeralda”. Uma das canções mais loucas e geniais já compostas. Um caleidoscópio de imagens e referências a arquétipos medievais misturados a uma ingenuidade típica da bossa nova, com cara de literatura histórica, mas com o punch do samba rock. É inédito até hoje.
Ninguém tem hoje essa coragem de criar uma piada que seja um poema, de dizer maluquices que de fato são belas descrições de desejos e idealizações de beleza para o mundo trazidas pelo artista. Isto é ser visionário.
6. “Canto de Xango”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, com Monica Salmaso e Paulo Bellinat.
A voz de clarineta de Monica Salmaso e o violão preciso de Bellinat recriaram o clássico disco de Vinicius e Baden, limpando o ar de terreiro do disco original, mas semtirar o mistério. Segundo Bellinat, a voz de Monica é de fato seu instrumento musical. Ela é uma musicista que usa como instrumento sua voz. E a canção que escolhi para figurar aqui na lista tem uma força inexplicável, e conta sem narrar uma história de um ser humano especial, que tem uma ligação profunda com seus deuses, sua terra, o mar, a vida. É de arrepiar a alma. E fala muito pessoalmente. Pode haver outra mais bela no disco, mas esta para mim é insubstituível. É preciso escutá-la como quem lê um livro, como quem vê um ator em monólogo no palco. Deve parar tudo e ouvir com delicadeza, com o ouvido no chão…pois um deus está caminhando sobre a terra.
Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só o amor em mim
Tudo é só o amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô
Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu Orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para gente amar
7. “This Could Be the Start of Something Big”, de Steve Allen, com Ella Fitzgerald.
Um retorno ao jazz, na voz de Ella, que para mim quivale a uma garrafa de champanhe, o mais nobre que pode haver. Esta canção é uma delícia. Fecha o fantástico disco “Clap Hands! Here Comes Charlie”, de 1961. Cheia de esperança e vivacidade, bom humor, charme e ao mesmo tempo madura mas sem perder a juventude, típica dos sonhadores, dos que suspiram, dos que esperam o milagre do grande amor, mas com sua taça de espumante na mão deitado(a) na praia. Querem coisa mais sofisticada?
8. “Round Midnight”, de Thelonius Monk, com Ella Fitzgerald.
Do mesmo disco citado acima. Esta peça dispensa apresentações, é simplesmente uma das coisas mais belas que ocorreram no jazz, fruto da genialidade de Thelonius Monk. Eu poderia ter colocado na lista também as esplêndidas “Stella by Starlight” e “A Night in Tunisia”, mas não caberiam. O que mais há no mundo é música maravilhosa, ainda por cima no mundo do jazz, vasto mundo… Aqui, o mistério natural da peça não se dissipa com a letra. Ao contrário, a voz divina de Ella e seus vôos melódicos são hipnotizantes. Arrepios de madrugada, é que é o final da performance. She casts a spell.
Com vocês, a Deusa, First Lady of Song…
9. “I’ve Never Been in Love Before”, de Frank Loesser, com Chet Baker.
Não poderia faltar aqui o deus duplo do trumpete e voz, o misterioso poder de sensualidade, ingenuidade e sutileza disfarçado sob um ar de pureza que somente Chet foi capaz de dominar. Esta peça é de fazer chorar, então cuidado. Ela diz muito. Conta muito, se explica, mas não explica tanta beleza. Um menino com o coração estilhaçado tentando entender e se justificar por ser inocente. As notas claras do trumpete no solo abençoado de Baker se sobrepõe a um piano discreto e é seguida por um final inebriante, sem lágrimas, mas com um nó na garganta. Isso é West Coast…neve em cima, lava embaixo.
10. “Day is Done”, de Nick Drake.
Na voz dele próprio, gravado no disco “Five Leaves Left”, primeiro álbum de Nick Drake, 1969. Reparar como o violão implacável corta mas se harmoniza com a linha insistente e nobre das cordas, violinos e cellos, que avançam como um temporal no meio da música revoltando-se contra a condição de mera base harmônica. Pode soar macabro, mas para apreciar completamente o alcance deste sublime artista nesta canção universalmente admirada, é importante lembrar que ele morreu ao 26 anos, provavelmente suicídio. A voz sombria e escura, mas suave, de Drake traz à memória o lado chuvoso da existência, e o fato de que nos distraímos com músicas, bebidas, brincadeiras, romances, para esquecer que “quando o dia se foi/ não há ninguém para chamar de seu/não há um lugar para chamar de lar/quando o dia se foi”.
Um espírito que nunca pertenceu a este mundo vil, e que passou rapidamente pelo mundo para deixar um rastro de beleza melancólica, e trilhas de conchas e sons inesquecíveis.


