Sobre a música minimalista

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Assisti ao filme “Man on Wire”, sobre o equilibrista francês Philippe Petit, que atravessou o vão entre as torres gêmeas sobre um cabo de aço em 1974. Linda história. Mas como sempre me acontece, não assisto a um filme sem me deter particularmente na música. Neste caso, o documentário teve pouca originalidade mas muito bom gosto. Com exceção da magnífica cena em que o jovem realiza seu grande feito, ao som das “Gymnopédies” de Erik Satie (escolha extremamente feliz, dada a singela singularidade da cena…  Satie sozinho com Petit, o bastante para causar uma emoção inexplicável), e de outra cena ao som de “The Lark Ascending”, romance para violino de Vaughn Williams, o resto do filme é tomado por Michael Nyman. Mas não é música original, e sim de outros filmes cujas trilhas ficaram mais célebres que seus títulos. Não houve nem exceção à conhecida trilha de “The Piano”. Estava lo som do esplêndido filme de Jane Campion. Isso me levou a indagações anteriores que  me ocorreram em outras ocasiões sobre a música da escola chamada minimalista, e mesmo nos casos em que seus compositores não se proclamam pertencerem a uma linha, mas simplesmente o estilo minimalista que permeia a criação. Surgem algumas questões tais como:

  1. Por que a música minimalista serve tão frequentemente ao cinema?
  2. Por que o sentimento particular de melancolia mesclada a uma alegria infantil? Como isso acontece simplesmente?
  3. O que há de errado nas pessoas que criticam tal  música julgando-a simplesmente como repetitiva?

Tentando especular sobre algumas questões como essa, acabamos nos enrolando em fios de longas meadas, que vão com frequência dar em praias distantes e de difícil acesso a amadores e leigos, entre os quais estou. A substância do cinema como arte, a estrutura do som e a cognição humana, a educação (ou falta dela). Podemos tentar? Podemos. Não se vai para a cadeia por simplesmente… pensar.

Phillip Glass e “The Hours”:

Porque o cinema é movimento e memória. E a repetição de temas e microtemas, com suas pequenas nuances até transformar-se em uma grande massa de água sonora, faz da música minimalista um pano de fundo irrestistível para a sétima arte, já que ela vai participar do movimento visual e da emoção sem estar ali, sem estar sob foco,  sem participar como estrela óbvia. Ela vai promover o grande cenário sonoro para que as imagens reinem soberanas, e entretanto será o coração pulsante das cenas. Ela pode permear, como uma pequena lembrança que se transforma num grande trauma ou numa imensa e doce recordação de infância, toda a vida, ou seja, todo o filme, toda a sua alma. Os filmes com música minimalista deixam um rastro sonoro. Mesmo que nos esqueçamos da música, pode-se ouvi-la com o coração horas depois. E ao ouvi-la sem ver o filme, podemos reconstruí-lo com suas cenas, e sentir novamente seus sabores e pequenos aromas. Quem não pensa em Amélie Poulain ao ouvir o genial multi-instrumentista Yann Tiersen?

Video com a música “La Plage”, do francês Yann Tiersen:

Porque a melancolia é previsível na estrutura específica da música minimalista, sabendo-se o quão previsível pode ser um ser humano às vezes diante de certos fenômenos, como reflexos. Como desce fácil um intervalo de quinta justa, e como é frequente na música ocidental. Transmite universalmente a certeza e uma nobreza tipicamente antropocêntricas. Os intervalos menores, e as tonalidades menores, ao contrário, transmitem sempre uma tristeza, ou no mínimo um leve estupor reflexivo. Não vêm fácil. Mas como produzir melancolia e uma suave doçura terna de memória da infância, uma alegria pueril, ou mesmo ironia? Ainda preciso estudar muito para descobrir. Deixo para os professores de harmonia e os especialistas responderem.

Nyman e seu piano:

Nyman e  a trilha de “O Libertino”

Muita gente ainda diz que não é música para ser ouvida fora do cinema, apesar de ter sido concebida como um projeto intelectual por si mesmo, fora dos estúdios cinematográficos. Há quem diga que é repetitiva, o que é uma crítica óbvia, já que a repetição é o truque e o coração da estrutura deste tipo de música. Tiersen, por exemplo, se utiliza muito da repetição, mas reforça a riqueza e variedade de instrumentos e sons, que tornam a coloração única, uma música de vivacidade extrema, uma sonoridae completamente particular. Como quem se deleita com muitos doces e salgados e bebidas inebriantes… mas é um tema básico. Isso faz reconhecer um músico nato. Música é estruturada em temas simples, que se evolam e desenvolvem com estruturas matemáticas construídas em cima de si mesmas.

Dar-se a liberdade de ser simples para alcançar a complexidade. E daí o céu, o mar sob rochedos, com suas eternas ondas, que mudam apenas de frequência e tamanho, mas nunca de padrão.

Certamente ainda voltarei ao tema.

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  1. Cecilia, seu conhecimento musical é requintado para que eu me atreva a debater sobre o tema, mas nao requintado demais para me privar de ouvir La Plage e dizer que é lindo… :-)

  2. Estava pesquisando sobre música minimalista e que boa surpresa foi cair aqui no seu blog…

    gostei muito do post… é exatamente o que penso… e algumas coisas que já ouvi: “só fica repetindo isso?” “isso é música de filme!”

    srrsrs

    bom… há gostos e gostos, né?!

    Abraço… continue com o blog…

  3. Pingback: Felippe Senne » Blog Archive » Minimalismo verdadeiro

    • Oi Felipe, obrigada pela indicação! Fico feliz de ter trocado ideias com leitores incógnitos, ser lida e apreciada. Estou contente de ter contribuído algo sobre o tema “Música Minimalista”.
      Um abraço.

  4. Grande felipe obrigado pelos créditos, esse post e de grande valia para a música eletrônica minimalistica que é tal criticada em alguns casos, abs!!!

  5. muito interessante … estou iniciando meus estudos em música e, adorei as referencias…

    gosto de escrever e estou pensando em compor para usar a música minimalista como fundo para algums de meus poemas.

    dá certo com o cinema, será que daria certo com texto quase cantado?

    abraços.

    audgomes.wordpress.com

    • Olá, acredito que música se dê bem com qualquer coisa, especialmente música minimalista. Com poesia, ela deve formar uma parceria extremamente elegante e simbiótica. Também escrevo poemas, mas nunca escrevi para serem cantados, apesar de haver em muitos uma rítmica própria (ainda que livre) e muito próxima do minimalismo musical eventualmente.
      Um abraço.

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