The Loneliest Monk e a solidão

Descobri há poucas semanas este incrível duo que faz cello rock de vanguarda e não sei mais o quê. O “monge mais solitário” é um cello e percussão.

Conferindo:

Difícil saber o que isso é. Mas dá pra ver que o duo de Michelle Morales, que além do cello é vocalista e eventual tecladista, e Miles Benjamin, que se encarrega da bateria e dos teclados , além de se arriscar nos vocais, trazem um algo mais ao mundo do Cello Rock. É difícil às vezes saber a fronteira entre rock e jazz e sonzeira de vanguarda que eles fazem. Até porque, como o Rasputina, eles se trazem o teatro para a música. Benjamin sempre se apresenta mascarado e Morales também tem adotado a ideia da persona estranha, de outro mundo, talvez literário, que desce diante de nossos olhos e ouvidos. O mais recente video do duo traz tudo o que estava em potencial criativo e nos evidencia a solidão em que o tal monge deve estar… porque de alguma forma, explicita a nossa solidão, em meio a um som simultaneamente encantador e levemente macabro. Um som que é difícil compartilhar com quem não tem as mesmas ideias a respeito de Arte. Uma solidão das ideias e do coração.

Disse o Chicago Tribune: “um baile de máscaras… As canções soam frequentemente como se tivessem sido criadas e reunidas por fantasmas e memórias.”

Não dá pra comparar o the Loneliest Monk com grupos de cello rock ou artistas de vanguarda  chatos como Break of Reality,  Unwoman e Julia Kent. porque eles são chatos, são repetitivos, fazem um som de eunucos, criaram uma fórmula e a repetem na segurança de que são considerados excepcionais em sua idiossincrasia, mas apenas não atentaram para o fato de que são personagens de uma história com poucos nomes. O cello rock é uma novidade, o mundo sempre estava acostumado com a ideia do violino tomando a liderança no mundo dos arcos, e de uns anos pra cá o cello ganha um destaque tal que não poderíamos pressupor há 30 anos (não existe Violin Rock, mas sim a participação do violino no Rock), desde Rasputina e principalmente desde o Apocalyptica. The Loneliest Monk é mais: é inteligência musical, é conhecimento de duas pessoas que obviamente estudaram muito e agora colocam a coisa toda a serviço de uma imaginação profunda, de uma concepção de arte que é simultaneamente moderna e antiquada, racional e sensual, com um som possante e viril ao mesmo tempo intuitivo e, portanto, feminino. É o encontro de homem e mulher. The Loneliest Monk é mistério, meus amigos.

Pra saber mais: http://kilo.wearetheloneliestmonk.com


Feliz Dia Mundial do Rock!

Era para ter postado ainda em 13 de julho. Deixo para o Dia da queda da Bastilha então.

Eis o porquê de haver tantas bandinhas mixurucas hoje em dia: os músicos perderam o contato com o pai mais fértil da história da música popular ocidental, o blues. O mesmo que gerou o jazz, gerou esse colosso aí em cima. Outra observação: infelizmente não fazem mais cabelos como esse hoje em dia. Lindo, não?


Três bandas estranhas que todos deveriam conhecer

Quando ouço essa gente, é fácil ficar “ligada”, incomodada, estupefata, certamente encantada, como se estivesse numa espécie de sonho ou mundo paralelo dos sons e da poesia. Porque eles sabem fazer poesia enquanto tocam, e não somente pela música, mas às vezes pelo visual ou pela presença de instrumentos que o velho e bom rock’n'roll não admitiria há anos atrás. Rock lembra muito frequentemente agressividade, revolta, quebra de tabus e de regras, mas muito frequentemente de forma agressiva, masculina, raiva de menino do subúrbio. Uma amiga uma vez me disse que até as mulheres roqueiras costumam parecer adolescentes do sexo masculino. Pode ser, mas esses três grupos quebram as regras de forma feminina (mesmo sendo duas delas constituídas por homens). Não existe aqui o excesso de testosterona, nem gritos ou punhos cerrados, nem cabelos longos sujos e correntes de caveira, vestindo preto e nem mesmo guitarras. Se houver alguma guitarra, ela é coadjuvante. é o burlesco que dá as cartas, o teatro, o semi-oriental, o asilo dos desterrados, mas com muito charme (sem aquele apelo de “sofri bullying quando criança porque usava óculos que pareciam os do Chaves” de alguns emos de plantão ou indies de centro acadêmico). Eles quebram a banca do rock, desclassificam a qualificação e qualquer nomenclatura de gênero, e são diferentes mas são adultos, são artistas maduros e criativos até não poder mais. Nem sei mais o que é isso que estamos ouvindo, não é mais rock, mas é estranho e é do cacete!

1. Devochka

Essa banda liderada por Nick Urata, que considero um músico nada menos do que genial, arrepia com o uso de violino, acordeon, entre outros instrumentos exóticos, mas diferente da viadagem de bandas de rock mais pesado que gostam de pôr música clássica no contexto simplesmente colocando uma orquestra amplificando o som como mero pano de fundo, o violino e o acordeon não estão aqui para tornar a coisa mais refinada. Eles estão aqui para criar um clima de sonho-pesadelo de infância, fazer você se questionar se está pisando na terra, se está no seu país de origem. Vira e mexe você acha que alguém vai aparecer falando russo do seu lado, dadas a sinfluências de música folclórica eslava no som dessa galera.

Reparem no uso da tuba na faixa de abertura do fantástico álbum “Una Volta” , de 2003.

2. Beirut

Alguns a consideram uma banda irmã do Devotchka no sentido de que se você conhece uma, tem que conhecer e gostar da outra, apesar dos sons não serem tão parecidos. O Beirut é melancólico de forma diferente, talvez mais suave e menos pungente do que a banda de Nick Urata, possivelmente porque o vocalista e líder, Zach Condon, possui uma bela e aveludada voz cujo timbre lembra a de Jim Morrison, e a de Urata é mais aguda e triste, este último é, digamos, menos “cantor”, enquanto Condon é um cantor nato. Beirut também possui influências do leste europeu, com absoluta ausência de guitarra. De novo acordeon, órgão, metais (trumpete, viva o trumpete), cordas dedilhadas exóticas. E a voz  de menestrel vindo diretamete da alta Idade Média de Condon. Eita som bacana. Infelizmente a rede Globo de TV promoveu o desserviço de usar um carro-chefe do Beirut, “Elephant Gun”, em uma de suas novelas ou qualquer coisa que valha, tirando a música e a banda do contexto indie ao qual ela pertence, e azedando a poesia. Confiram o poder dos metais e da voz de Condon na faixa abertura de “March of the Zapotec”.

3. Rasputina

Esse exótico grupo formado em Nova York pela espetacular artista Melora Creager (cello, vocais, letras e criação em geral) é basicamente dominado por mulheres. O único homem é o baterista, Jonathon Tebeest. A conformação básica é de 2 cellos (meninas) e bateria (menino), sendo a vocalista Creager cello líder. Pra começar, eles t6em um visual incrível: inspirado em filmes que se passam no século XIX como “E o vento levou”, elas usam corsets claros, espartilhos, e o menino usa suspensório, colete, chapéu das antigas, o que puder pra causar a impressão de que Melora é A Louca e o resto da banda camponeses no mínimo estranhos. A voz de Melora, cristalina e aparentemente fria, causa ainda mais estranhamento, além dos cellos. A banda muda constantemente com saída e entrada de membros, inclusive já tendo contado com a participação da violoncelista avant-garde Zoe Keating. Sem falar que o som realmente é feminino, delicado, com uma raiva e intensidade contida e direcionada típica das mulheres, com letras que contam histórias medievais ou que confessam coisas de mulheres. Confiram o poder de Rasputina (aliás, esse nome vem da filha do excêntrico conselheiro russo Rasputin do czar, antes da Revolução Bolchevique) na faixa do disco “How we quit the forest” de 1998, e no cover da famosa “Wish you were here”do Pink Floyd, que ganhou uma coloração melancólica, dark cabaret, toda apropriada na voz e no cello de Melora Creager e seus companheiros.

You don’ own me, no…

Floyd em nova pele


That’s the blues!

Confesso que, apesar de gostar muito mesmo do Apocalyptica, não sou metaleira. Nunca fui, nunca tive talento, sangue, alma de metaleira. Metal é um termo estrangeiro para meu espírito apesar de achar interessante e que até os músicos de metal conseguem atingir as fronteiras do belo uma vez na vida.

Mas não é isso que eles buscam nesse tipo de rock, e é o que eu busco. Minha alma definitivamente é do blues. Do jazz. Do folk e do rock envolvido nessa capa, quando não estou dedicando minha audição à chamada música “erudita”.

O que faz as pessoas terem disposições estéticas tão diferentes? Cogitar teorias a respeito pode ser divertido. Mas não vim aqui para isso.

Gostaria mesmo é de ressaltar algo que percebi há pouco tempo a respeito do blues. E de seus filhos folk-rock e soul. Coisa óbvia para muitos, mas apenas senti na pele há poucos dias.

É preciso estar muito puto da vida para escrever uma canção dessas. Mais do que qualquer metaleiro jamais possa imaginar, mesmo com todos headbangs e poses de quem está puto…

Você eleva as taxas, congela nosos salários e manda meus filhos para o Vietnam. É isso o que eu tenho pra dizer, porra. Que canção furiosa, sem a necessidade de uma guitarra distorcida e ultra barulhenta. Apenas a voz da divina Nina e uma banda simples com uma guitarra potente mas discreta.

Isso é o blues. Canta como um subempregado da fábrica que não recebe há trẽs meses, resmunga pelos cantos com palavras precisas e notas tocantes, ódio sem gelo no whiskey, mas com uma voz distinta e metálica para o céu, única testemunha de tantos sofrimentos nesta terra esquecida por Deus.

Nenhuma peça de Lizst se compara a isso, que me perdoem os eruditos. Bem, Liszt era um chato, de fato. Nada tão conhecido possui tanta profundidade sem palavras, tanta hipnose no deslumbre diante do medo, do escuro, da noite, do terror. Nem existe nada de qualquer banda de rock que se compare em simplicidade e estertor. Sem gritos, sem efeitos especiais, sem cabelos esvoaçantes. Dark was the night.

E também nunca ouvi uma canção verdadeiramente feminista, puta da vida, mas apaixonada, que diz algo como: eu te amo, mas se você nãoi me tratar como uma mulher de verdade, te ponho um par de chifres na testa, é inevitável, afinal sou de carne e osso. Mais feminino e verdadeiro, e digno de si, do que “Do Right Woman, Do Right Man” na voz da grande Aretha, não há. É o despertar do soul, do black power, dos panteras negras e a força do movimento feminista mostrando as caras nas primaveras do Ocidente nas décadas de 60 e 70. They say it’s a man’s world, but you can’t prove that by me. And as long as we’re together baby, show some respect for me. Uau, todas as feministas do mundo, uni-vos diante da incrível voz de Aretha.

E quando românticos… simplesmente avassaladores. Arroubos e cenas de tragédias shakespeareanas, nada menos.

Mas boa parte do blues trata de sexo, de formas variadas, seja do homem ou da mulher que foram abandonados por seus fogosos amantes e deixados à míngua com uma garrafa de bebida, ou cantando a história de um desejo, ou de uma solidão preexistente, ou ainda cantando o indivíduo que se garante como o(a) melhor amante do mundo, o sonho de todas as mulheres(homens), os deuses do sexo que são menestréis nas ruas sujas de alguma metrópole. Ladies and gentlemen, segue Mr. Waters com sua famosa sequência 1-2,1-2-3.

E como sempre é dito por aí, mais sofrimento, mais sangue negro, mais orações nas encruzilhadas, lágrimas e garrafas de bebida, por motivos diversos. Sempre cantados com uma dignidade e uma pungência aparentemente incompatíveis, mas que se entrelaçam na ideia única, concebida a ferro e fogo, no sul dos Estados Unidos.

Ninguém consegue ficar tão puto e com tanto medo, e ao mesmo tempo tão calmos e nobres na contemplação de seu sofrimento.

That’s the blues!


Melanie Safka – militância vegetariana

Uma musa entre Joni Mitchell e Joan Baez cantando uma bela causa com uma letra simples e poética.

Sou vegetariana pelo mesmo motivo: não quero nada morto dentro de mim. Somente vida.

Um violão, poesia e militância em música… agora não por causas sociais ou políticas… mas sim pelos animais.

I was just thinking about the way it’s supposed to be,
I’ll eat the plants and the fruit from the trees,
And I’ll live on vegetables and I’ll grow on seeds,
But I don’t eat animals and they don’t eat me,
Oh no, I don’t eat animals ’cause I love them, you see,
I don’t eat animals, I want nothing dead in me.

I don’t eat white flour, white sugar makes you rot,
Oh, white could be beautiful but mostly it’s not.
A little bit of whole meal, some raisins and cheese,
But I don’t eat animals and they don’t eat me.
Oh no, I don’t eat animals ’cause I love them, you see,
I don’t eat animals, I want nothing dead in me.

A little bit of whole meal, some raisins and cheese,
I’ll eat the plants and the fruit from the trees,
And I’ll live on vegetables and I’ll grow on seeds,
But I won’t eat animals and they won’t eat me,
Oh no, I’ll live on life, I want nothing dead in me,
You know I’ll become life and my life will become me,
You know I’ll live on life and my life will live on me.


Grandes companheiros de solidão

Há música para todo estado de espírito possível. Inclusive para quando se deseja a solidão acima de tudo. Cito alguns exemplos.

1. Marin Marais, Lully, Couperin, Demachy, Sainte Colombe e outros renascentistas na viola da gamba.

Antes de qualquer coisa, procurar por Jordi Savall e Le Concert des Nations tocando os compositores citados. Não pode haver interpretação mais precisa que a de Savall, maior delicadeza e compreensão espiritual da dimensão de cada peça. Sua viola da gamba e seus músicos são um só organismo.

O intimismo de “La Revêuse”, “Le Badinage”, de Marais, e as peças características de St. Colombe, o barroco francês se vestindo de um preciosimo rococó mas que na verdade falava apenas de verdade, natureza, amor, tristeza, melancolia. Coisas com cheiro de rio deslizando sobre pedras e céus noturnos. A viola da gamba francesa é uma das melhores companhias que uma pessoa pode desejar.

2. Nick Drake

Sem me alongar muito, já que o nome suscita pensamentos melancólicos por si. Beleza, solidão e reserva de sentimentos apenas reelados de soslaio em acordes estranhos ao violão (afinado de forma exótica mas paradoxalmente terna), e uma voz aveludada e sombria que inspiram chuva, estradas tristes e árvores de copas largas, ficalmente dando para um jardim onde se vẽ um túmulo, onde estão gravadas as palavras: “Now we rise…and we are everywhere.”

Um video com cena da homenagem atuada por Heath Ledger, no “papel” de Drake.

3. Emiliana Torrini

Sua voz suave, infantil e doce lembra muito a de Björk, com a diferença que Torrini é muito melhor. Em que sentido? É mais consistente. O que estraga (para meu gosto particular, muitos adoram) Björk, conterrânea de Torrini, é seu excesso de experimentalismo. Emiliana Torrini é folk, é quase visual, é material e simples. Por isso a poesia e o silêncio que ela domina de forma tão magistral são companhias quase não sentidas numa tarde dourada de outono.

Meus gatos, vinho e estas companhias, por exemplo, entre outras presenças musicais como Vashti Bunyian e Yann Tiersen, tão diversos em mundos e influências, preenchem minhas solidões antárticas  como ventos frescos no início da estação. Adentrando meu quarto, passando pela janela, encantando a vizinhança, hipnotizando felinos.


Nicholas

I have been mourning you for days
I have been mourning to the moon
You would have waited for me if you knew I was mourning.
Such a beauty could not last upon the earth
but a star remain alive in its long flying light.

Beauty hurts and heals.
And its surface can be rougher than a stone when above the abyss.
Pale body and dark soul in the mist
then my heart seem to stop for the glory of Infinity.
You could have waited for me over the creek.

I forgot the cruel world and its beasts
I flew light and everywhere, rose high and looked for you
but your face seemed to fade in the mist among the black and white
like horses in the field of rice and sand, near the river.

The sound hurts and  the poets are all dead.

It means we can rest now, my dearest love.
We can see the ocean and walk over the fields
of flowers, green leaves and dead bodies of poets.
Poets fallen, feathers or stones taken by gods from the hills.

You could have waited, how could you be so impatient
now they’ll know you were here when you’re gone.
And I will stay on the train station looking to the lines
and crying for your black hair in the wind that’s gone
Everything gone to the hole of time, through the eye of forgetting
but desperately I cannot forget in the early morning
the prayers your hair sent to the tiny gods of thunderstorms.

We shared ours hands on the creek
and we wore clothes made of plants and shells.
It hurts so much I cannot write anymore
I would vomit my soul if I had one.
It hurts, Nicholas, and you thought I didn’t know
what love was, how it feels to be constantly in pain.
I wish you had waited on the river.

For the first time I know of loss
but I’m going after you
wherever you are I will find you and we shall laugh.
I promise I won’t stay and watch your pictures.
I have already died many times watching the river take shadows away.


Cello e piano – um casamento

O cello é um instrumento da família das cordas friccionadas por arcos. Ou simplesmente da família dos arcos. De registro médio, deveria ter um diálogo constante e harmonioso com os outros membros de sua família. Deveria ser o irmão do meio, entre o agudo lamento do pequeno violino e alguma intimidade com sua irmã mais próxima em sonoridade, a viola, e alguma distância mínima, amenizada pela sua modéstia e habitual discrição, com relação ao pesado, às vezes triste, às vezes cômico, irmão maior, o contrabaixo. Vemos que a família parece funcionar perfeitamente nos quartetos e quintetos, mas de fato eles mantém uma norma polida, social, dos bons costumes de apresentação familiar. Eles estão sempre dialogando nestas peças, mas existe um conflito inerente. Uma disputa entre os violinos, a viola até que tenta ser mais participativa, e o cello se resigna à sua fina posição de apoio, discreto, leal, delicado, tranquilo, sem tentar se exibir para os outros, como fazem normalmente os violinos. Apenas aceitando seu papel. De qualquer forma, é uma reunião com algumas farpas esvoaçando e sem profunda intimidade.

Principalmente entre cello e violino. Existe uma clara contradição, disfarçada pelo fato de que o violino, em sua tagarelice e exibicionismo naturais, não se sente ameaçado pela madura fala do cello, íntimo e reflexivo. Eles são tão distintos que não pode haver uma guerra. Eles conversam. Mas nunca haveria um romance entre eles, um amor real, uma conversa que concluísse em compreensão mútua, em um entrando no coração do outro. É impossível. Um desliza respeitosamente sobre o outro, mantendo seus corações separados.

Curiosamente o mesmo não acontece quando o cello encontra o solitário piano. Aparentemente o piano consegue, na sua majestade e amplitude de alma, encontrar qualquer instrumento, apoiá-lo, dialogar, sem deixar de brilhar. O encontro com o violoncelo não seria diferente. Mas na minha opinião, para conversar com o cello, não pode haver interlocutor mais amoroso e íntimo do que o piano. Eles são almas gêmeas. O espírito de intimidade e delicadeza entre os dois consegue sua máxima manifestação. A natureza marinha, ampla, larga, profunda e brilhante do piano encontra seu reflexo na melancolia moderada e sombria, sem lamentos excessivos, mas de grande alcance, do violoncelo. Eles não só conversam. Eles oram. Eles compõem um poema.

Aqui a demonstração não valeu, podem dizer, porque a música é na sua estrutura lenta e delicada. Simples. Pois então vejamos como os amigos se saem num campo de batalha (Shostakovitch Cello Sonata). Sempre unidos. Nunca uma sombra de traição.

É um casamento mais do que perfeito. Intrigante, entretanto. É possível vê-los à vontade, à beira-mar, ou numa noite de lua, tranquilos, mesmo que a angústia mostre sua face sinistra na última janela da torre, na Phantasiestücke de Schumann.

Por isso, antes de me apaixonar pelo cello, sempre sonhava em ser pianista. Estava na minha natureza. Estou sendo levada para outro caminho, mas são afluentes do mesmo grande rio.


Dez canções populares

Sem intenções objetivas, sem hierarquias, sem orientações. Apenas uma lista com alguns apontamentos vadios.

1. “Last Time I saw Richard”, de Joni Mitchell.

Um bar, bebida, divagações sobre o fim de todos os românticos… cínicos, amargurados, bêbados, acusando o mundo inteiro de hipocrisia e jogando a si mesmos(as) na fogueira de desprezo e exposição social, e um auto-desprezo sarcástico, mas ainda com uma profundidade na alma que somente os poetas de nascimento, os iniciados, os que carregam a marca (como foi escritp pelos Românticos do século XVIII, “os poetas são filhos da tempestade”) possuem. Esta é a canção de Joni que fecha o lendário álbum “Blue”, um clássico de 1970. Mais do que “River” (que já foi tão regravada que não posso mais aguentar, sempre pulo a faixa) e a também melancólica “A Case of You”, esta canção merece a concentração máxima e lágrimas no final… com um riso no canto da boca, um copo de whiskey, lua e memórias misturadas à reflexão sobre o passado, tenha sido ele bem vivido ou cheio de espinhos que gostamos de evitar.

O piano traz a delicadeza enquanto o canto de Mitchell equilibra a emoção com sobriedade e maturidade. Ela provavelmente encontra um ex-amante (?), caído em desgraça, alcoólatra e amargo. Como ela? Richard seria o espelho da compositora? A imolação máxima de si mesma numa situação de extrema depressão, sem que ela tenha que se expôr diretamente ao se colocar em tal situação?Recursos de uma poetisa, e com o coração partido. Mas cuja dignidade e inteligência não se curvaram, apenas tomaram uma tonalidade escurecida…em dias de cafés escuros e bebidas sem gelo nem  água.

“(…)And he told me all romantics meet the same fate someday
Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe
You laugh, he says you think you’re immune, go look at your eyes
They’re two blue moons
You like roses and kisses and pretty men to tell you
All those pretty lies, pretty lies

(…)

“Richard, you haven’t really changed,” I said
It’s just that now you’re romanticizing some pain that’s in your head
You got tombstones in your eyes, but the songs
You punched are dreaming

(…)

I’m gonna blow this damn candle out
I don’t want nobody comin’ over to my table
I got nothing to talk to anybody about
All good dreamers pass this way some day
Hidin’ behind bottles in dark cafes(…)”

2. “The Way Young Lovers Do”, de Van Morrison.

Uma canção sobre o amor enquanto jovem, o amor de jovens, como diz o título. Uma beleza ímpar, enfurecida, libertária, pegando fogo e colocando fogo por onde passa. Num mundo envilecido e amarelado pelas restrições, jogos de adultos, misérias em romances incompletos, repressão sexual e social de diversos níveis, doenças sociais, caos. Ou excessiva calmaria causada por opressão política, religiosa e convenções sociais, ou ideias erradas que um indivíduo possa fazer de si mesmo. Tudo é destruído ou desafiado pela voz rascante e rebelde de Van Morrison, o baixo enlouquecido, metais em fúria, guitarra tagarela e cordas quase ciganas como uma ventania que espalha folhas varridas para um canto e esvoaça saias e cabelos. A libertação amorosa, apenas como os jovens sabem fazer, ou como aqueles que nunca envelheceram.

A canção abre o filme “Welcome to Sarajevo”, aliás uma abertura alucinante. Uma noiva se prepara com a ajuda da mãe para seu casamento. Elas percorrem as ruas destruídas da cidade sitiada. A moça acredita na inocência do ritual sagrado e na força do amor numa época de guerra e crueldade. A música cai como uma luva.

“We strolled through fields all wet with rain…”

Astral Weeks, de 1968

3. “Never Will I Marry”, de Frank Loesser, com Nancy Wilson e Cannonball Adderley.

Um hino à liberdade. Se bem que com um certo toque de melancolia, pois para alguns esta bela canção pode soar como um hino às avessas ao casamento, ao amor idealizado na união (seja religiosa ou não), cristalizado na velha fantasia (real ou impossível) do amor eterno até que a morte os separe. Creio que não. Ela é um corajoso libelo pela autonomia, individualidade, e um voto de confiança na amplitude e imprevisibilidade da vida, na esperança de eternas aventuras para quem decidir não envelhecer. “Wide my world/narrow my bed…”

A voz cristalina de Nancy Wilson e o sax genial de Cannonball Adderley, duas lendas do jazz. Baixo bem posicionado e presente garantindo a leveza e modernidade que a peça canta, a voz limpa e versátil de Nancy com um solo memorável de Adderley. Só ouvindo. Pra curtir numa manhã de sol.

4. “Visions of Johanna”, de Bob Dylan.

Visões do poeta, observações das pessoas em torno, seus medos e vícios. Para ouvir de madrugada, quando todos estiverem subersos por sonhos e inertes no silêncio. As imagens evocadas ganham um realismo místico e a gaita de Dylan voa como um pássaro prateado na noite.

Deixemos o profeta falar por si mesmo.

5. “Like a Rolling Stone”, de Dylan.

Uma das melhores canções de todos os tempos (na opinião da Rolling Stone, a melhor). Mais um elogio à libertação do indivíduo. E sem ingenuidade… ao contrário, reforçada com cinismo e uma crítica à dignidade burguesa. Uma gaita alucinante e guitarras elétricas enfurecendo tolos pseudo-intelectuais xiitas do folk.

Neste show de 1966, ele urra desafiando a plateia.

6. “Os Alquimistas Estão Chegando”, de Jorge Ben.

Do álbum “A Tábua de Esmeralda”. Uma das canções mais loucas e geniais já compostas. Um caleidoscópio de imagens e referências a arquétipos medievais misturados a uma ingenuidade típica da bossa nova, com cara de literatura histórica, mas com o punch do samba rock. É inédito até hoje.

Ninguém tem hoje essa coragem de criar uma piada que seja um poema, de dizer maluquices que de fato são belas descrições de desejos e idealizações de beleza para o mundo trazidas pelo artista. Isto é ser visionário.

6. “Canto de Xango”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, com Monica Salmaso e Paulo Bellinat.

Capa altamente evocativa

Capa altamente evocativa

A voz de clarineta de Monica Salmaso e o violão preciso de Bellinat recriaram o clássico disco de Vinicius e Baden, limpando o ar de terreiro do disco original, mas semtirar o mistério. Segundo Bellinat, a voz de Monica é de fato seu instrumento musical. Ela é uma musicista que usa como instrumento sua voz. E a canção que escolhi para figurar aqui na lista tem uma força inexplicável, e conta sem narrar uma história de um ser humano especial, que tem uma ligação profunda com seus deuses, sua terra, o mar, a vida. É de arrepiar a alma. E fala muito pessoalmente. Pode haver outra mais bela no disco, mas esta para mim é insubstituível. É preciso escutá-la como quem lê um livro, como quem vê um ator em monólogo no palco. Deve parar tudo e ouvir com delicadeza, com o ouvido no chão…pois um deus está caminhando sobre a terra.

Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só o amor em mim
Tudo é só o amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô

Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu Orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para gente amar


7. “This Could Be the Start of Something Big”, de Steve Allen, com Ella Fitzgerald.

Um retorno ao jazz, na voz de Ella, que para mim quivale a uma garrafa de champanhe, o mais nobre que pode haver. Esta canção é uma delícia. Fecha o fantástico disco “Clap Hands! Here Comes Charlie”, de 1961. Cheia de esperança e vivacidade, bom humor, charme e ao mesmo tempo madura mas sem perder a juventude, típica dos sonhadores, dos que suspiram, dos que esperam o milagre do grande amor, mas com sua taça de espumante na mão deitado(a) na praia. Querem coisa mais sofisticada?

8. “Round Midnight”, de Thelonius Monk, com Ella Fitzgerald.

Do mesmo disco citado acima. Esta peça dispensa apresentações, é simplesmente uma das coisas mais belas que ocorreram no jazz, fruto da genialidade de Thelonius Monk. Eu poderia ter colocado na lista também as esplêndidas “Stella by Starlight” e “A Night in Tunisia”, mas não caberiam. O que mais há no mundo é música maravilhosa, ainda por cima no mundo do jazz, vasto mundo… Aqui, o mistério natural da peça não se dissipa com a letra. Ao contrário, a voz divina de Ella e seus vôos melódicos são hipnotizantes. Arrepios de madrugada, é que é o final da performance. She casts a spell.

Com vocês, a Deusa, First Lady of Song…

9. “I’ve Never Been in Love Before”, de Frank Loesser, com Chet Baker.

Não poderia faltar aqui o deus duplo do trumpete e voz, o misterioso poder de sensualidade, ingenuidade e sutileza disfarçado sob um ar de pureza que somente Chet foi capaz de dominar. Esta peça é de fazer chorar, então cuidado. Ela diz muito. Conta muito, se explica, mas não explica tanta beleza. Um menino com o coração estilhaçado tentando entender e se justificar por ser inocente. As notas claras do trumpete no solo abençoado de Baker se sobrepõe a um piano discreto e é seguida por um final inebriante, sem lágrimas, mas com um nó na garganta. Isso é West Coast…neve em cima, lava embaixo.

10. “Day is Done”, de Nick Drake.

Na voz dele próprio, gravado no disco “Five Leaves Left”, primeiro álbum de Nick Drake, 1969. Reparar como o violão implacável corta mas se harmoniza com a linha insistente e nobre das cordas, violinos e cellos, que avançam como um temporal no meio da música revoltando-se contra a condição de mera base harmônica. Pode soar macabro, mas para apreciar completamente o alcance deste sublime artista nesta canção universalmente admirada, é importante lembrar que ele morreu ao 26 anos, provavelmente suicídio. A voz sombria e escura, mas suave, de Drake traz à memória o lado chuvoso da existência, e o fato de que nos distraímos com músicas, bebidas, brincadeiras, romances, para esquecer que “quando o dia se foi/ não há ninguém para chamar de seu/não há um lugar para chamar de lar/quando o dia se foi”.

Um espírito que nunca pertenceu a este mundo vil, e que passou rapidamente pelo mundo para deixar um rastro de beleza melancólica, e trilhas de conchas e sons inesquecíveis.


Matemática e Estruturas Musicais – notas vadias

A Matemática que se faz hoje no mundo e que deu certo é o “Paraíso que Cantor nos deixou”, como afirmou Hilbert, o mundo dos conjuntos. De fato todas as coisas são conjuntos, mesmo as funções e relações entre eles, que são n-uplas de elementos de conjuntos, elementos de produtos cartesianos. Que por sua vez são conjuntos. É a única coisa que possuímos neste mundo. Sobre esses mares amorfos, esculpimos estruturas, mas como quem as põe em relevo. São muito naturais quando dão certo, ao ponto de dizermos que certo espaço é “equipado” com aquela dada operação, por exemplo (um espaço vetorial equipado com produto interno). Eu só consegui realmente começar a entender certas coisas quando enxerguei isto, que só podemos entender conjuntos, e relações ressaltadas entre certos elementos “distinguidos” ou não (por exemplo, o fato de certos anéis possuírem ou não identidade sob certa operação). Um anel A pode ser uma álgebra finitamente gerada sobre outro anel B, mas ser um módulo finitamente gerado sobre B seria diferente, apesar de álgebra incluir a idéia de módulo. Então a estrutura que vamos pondo em relevo… a natureza funciona assim? No meio do Caos amorfo, a criação e a destruição, o movimento do Cosmos e dos elementos… seriam “pôr em relevo” ou desconsiderar certas relações entre eles?

Order and Chaos, de Escher
Order and Chaos, de Escher

Agora ponho-me a pensar sobre a Música. Temos os elementos prontos, que são bem distintos, apesar de a matéria prima ser um fenômeno geral chamado “som”, abstraído de suas particularidades. Estas são exatamente os elementos que digo serem totalmente distintos. Melodia, seqüência de notas no tempo. Harmonia, relações entre sons produzidos simultaneamente. Ritmo, que permeia tudo. Então a combinação destes e outros elementos gera a música. Mas os mestres da música experimental nos mostram a todo momento que podemos sim, em nome da liberdade da Arte, abstrair nosso conceito de música, e fluidificá-lo, libertando-o de amarras intelectuais… e fala-se de Música Universal, e uso de objetos não usuais para produzir som, que trabalhe alguma criação mental do artista… então não estamos, a meu ver, em qualquer tipo de música, distinguindo relações num mar amorfo pré-existente, mas desenhando no meio do nada, e criando a estrutura onde antes só havia silêncio.

Música de Arvo Pärt.

Deste ponto de vista, a Música e a matemática são irmãs. De faces/naturezas opostas, de substâncias antitéticas, ligadas por algum cordão, mas voltadas para direções contrárias, e com propósitos contrários.

Por outro lado, John Cage disse que Música é… tempo. A Matemática possui modelagens sobre o tempo, envolvendo o tempo abstraído como uma simples variável contínua,  mas o tempo não está na Matemática. Eis o rompimento do cordão entre estas entidades do espírito humano.


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